"A beauty not explicable, is dearer than a beauty which we can see to the end of."
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Três mortes
"De manhã bem cedo, mal começou a clarear, Serioga pegou o machado e foi para o bosque.
Por toda parte estendia-se um manto de orvalho frio e fosco que caía insistente e que o sol não iluminava. O nascente mal começava a clarear, fazendo sua frágil luz refletir no firmamento encoberto por nuvens ralas. Não se mexia um só talo de capim e uma única folha nas copas. Só de quando em quando uns ruídos de asas entre as árvores compactas ou um leve farfalhar pelo chão quebravam o silêncio da mata, De repente, um som estranho, desconhecido da natureza, espalhou-se e congelou na orla do bosque. E de novo ouviu-se o mesmo som que passou a se repetir de forma regular, embaixo, junto ao tronco de uma árvore imóvel. A copa de uma árvore estremeceu de forma incomum; suas folhas viçosas sussurraram algo; uma toutinegra pousada em um galho esvoaçou duas vezes, piando, e pousou em outra árvore, remexendo a caudinha.
Embaixo, o machado ressoava cada vez mais e mais surdo; as lascas brancas e molhadas de seiva voavam sobre o capim orvalhado, ouvindo-se um leve rangido após os golpes. A árvore estremeceu por inteiro, inclinou-se e aprumou-se rapidamente, vacilando assustada sobre sua raiz. Por um instante, tudo ficou em silêncio; mas a árvore tornou a se inclinar e ouviu-se mais uma vez o rangindo de seu tronco; e ela despencou de copa na terra úmida, quebrando e soltando os ramos. Cessaram os sons do machado e dos passos. A toutinegra piou e voou para mais alto. O ramo em que ela roçou suas asas balançou por algum tempo e estacou, como os os outros, com todas as suas folhas.
As árvores, ainda mais alegres, pavoneavam seus galhos imóveis no espaço aberto há pouco.
Os primeiros raios de sol infiltraram-se por entre as nuvens, brilharam lá no alto e correram a terra e o céu. A neblina derramou-se em ondas pelos vales; o orvalho começou a brincar na relva; nuvenzinhas brancas e transparentes dispersavam-se apressadas pelo firmamento azulado. Os pássaros revoavam sobre a mata espessa e, sem rumo, gorjeavam felizes; folhas viçosas sussurravam radiantes e tranquilas nas copas, e os ramos das árvores vivas mexeram-se lentos, majestosos, sobre a árvore tombada e morta."
Liev Tolstói
Tradução de Beatriz Morabito e Beatriz P. Ricci.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Ainda embasbacado com Ossos.
Se sente a probreza em que vivem os personagens de maneira muito física, sem retórica. Nisso o Costa se parece muito com os escritores russos da grande época, mais para Dostoíevski do que para Tolstói, embora compartilhe da mesma genuína indignação, aquela que é alimentada por um senso ético em vez de uma demagogia mesquinha.
O labirinto no qual vivem os personagens é mais atroz porque também é o mesmo dia que parece se repetir incessantemente. Não há mudança concebível nessas vidas que não seja morrer. Mal há espaço para se viver, é necessário, a cada novo dia, negociar um mínimo de espaço. A cena do pai que pede comida para si e para seu filho recém nascido é muito forte. Menos do que ser tragado pela multidão, ele é eliminado do plano, anulado da existência. (Eu, ao menos, não consegui encontrá-lo no plano.)
O que me impressiona também é a habilidade colocada nesse filme. Costa começou a fazer filmes no ponto aonde Bresson parou. Embora não se entenda de imediato qual é a relação exata entre os personagens (o que, do jeito em que está no filme, me parece como o único procedimento coerente com o que o filme é), sabe-se de imediato quem eles são. Eles carregam consigo, a cada plano, a evidência de seu ser. O filme desenrola as relações entre os personagens de forma lenta, toda sua fúria cozinhando a fogo lento.
A base do filme é o trabalho, assombroso, com o som. Vendo o filme eu ia pensando "porra, é isso que é o som ao redor". Os berros contínuos que viajam pelo bairro inteiro de Fontainhas como o som de um planeta desconhecido. Se filmar cada lugar pede uma forma diferente (diferença bastante drástica entre o interior do apartamento da enfermeira, repleto de luz, e Fontainhas, aonde nem o sol parece chegar), cada lugar, também, emite sons diferentes. O apartamento da enfermeira parece ser isolado do mundo; em Fontainhas não se escapa do som dos outros moradores, como se estivéssemos num campo de batalha.
O punk chega, de verdade, no cinema com o Pedro Costa.
"Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu voo)."
João Cabral de Melo Neto, O cão sem plumas, 1949-1950
(Roubei do Bérnard da Costa a associação entre Cabral de Melo Neto e o Pedro Costa, mas é difícil não associar a arte dos dois, tão semelhante entre si, sobretudo numa execução seca, desafeita a imprecisões e afetações e rebuscamentos.)
(Ossos é um daqueles raros filmes aonde se sai deles satisfeito, mesmo sem tê-los entendido. Acho que só Kiarostami faz filmes assim hoje.)
O que me impressiona também é a habilidade colocada nesse filme. Costa começou a fazer filmes no ponto aonde Bresson parou. Embora não se entenda de imediato qual é a relação exata entre os personagens (o que, do jeito em que está no filme, me parece como o único procedimento coerente com o que o filme é), sabe-se de imediato quem eles são. Eles carregam consigo, a cada plano, a evidência de seu ser. O filme desenrola as relações entre os personagens de forma lenta, toda sua fúria cozinhando a fogo lento.
A base do filme é o trabalho, assombroso, com o som. Vendo o filme eu ia pensando "porra, é isso que é o som ao redor". Os berros contínuos que viajam pelo bairro inteiro de Fontainhas como o som de um planeta desconhecido. Se filmar cada lugar pede uma forma diferente (diferença bastante drástica entre o interior do apartamento da enfermeira, repleto de luz, e Fontainhas, aonde nem o sol parece chegar), cada lugar, também, emite sons diferentes. O apartamento da enfermeira parece ser isolado do mundo; em Fontainhas não se escapa do som dos outros moradores, como se estivéssemos num campo de batalha.
O punk chega, de verdade, no cinema com o Pedro Costa.
"Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu voo)."
João Cabral de Melo Neto, O cão sem plumas, 1949-1950
(Roubei do Bérnard da Costa a associação entre Cabral de Melo Neto e o Pedro Costa, mas é difícil não associar a arte dos dois, tão semelhante entre si, sobretudo numa execução seca, desafeita a imprecisões e afetações e rebuscamentos.)
(Ossos é um daqueles raros filmes aonde se sai deles satisfeito, mesmo sem tê-los entendido. Acho que só Kiarostami faz filmes assim hoje.)
domingo, 6 de dezembro de 2015
Alguns Toureiros
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
João Cabral de Melo Neto, Paisagens com figuras, 1954-1955
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
"Na época, éramos completamente inocentes ou meio loucos. Nosso sonho sempre foi filmar em Hollywood; depois, quando vimos o que era Hollywood... Eu por mim nunca fui lá, só um pouco à distância. Nunca poderíamos ir. Eu jamais aceitaria viver a vida que Preminger tinha de viver naquela época, ou cineastas como ele. E, ao mesmo tempo, há algo que nunca reencontrei, e que tivemos um pouco nos Cahiers du Cinéma: havia, apesar de tudo, um lado industrial, e as pessoas se viam e falavam um pouco dos filmes. É daí que vem a sua força. A força de nossos primeiros filmes, exatamente na época em que tiveram sucesso... Os primeiros filmes de Truffaut, ou os meus, foram feitos por pessoas que conversavam sobre cinema, e que deviam criticar-se um pouco. Como quando eu revia Fallen angel: tenho certeza de que o roteirista, o diretor, e o operador conversavam entre si. Nos Estados Unidos o verdadeiro diretor do filme é o produtor, sempre foi, os outros eram executantes. Mas esses executantes conversavam entre si. O operador devia dizer: 'o enquadramento não está bom', e depois o diretor não se sentia ferido em seu orgulho se lhe dissessem isso. Hoje, dois diretores já não podem sequer falar um com o outro. Acho que a força da Nouvelle Vague, na época, como a força de alguns cineastas americanos atuais numa escala bem superior, é que são pessoas que se conhecem, que falam de cinema. Agora, porém, os profissionais de cinema não se falam, sobretudo não falam a respeito do que fazem."
Jean-Luc Godard, Introduçaõ a uma verdadeira história do cinema
Interessante o Godard que aparece nessas falas (o livro é uma transcrição de palestras feitas em 1980). Não é o Godard cool e hipster que seus fãs mais imbecis parecem acreditar que ele é: é um Godard mais hesitante, mais crítico, disposto a passar sua carreira a limpo e a colocar os filmes sob um microscópio. Em alguns momentos parece estar se dirigindo especificamente para o Brasil de hoje...
Isso é uma das coisas que parecem explicar filmes como Casa grande. Mera sorte não é explicação suficiente para o sucesso (entre os nossos "críticos") um filme que é pouco menos que a história da longa jornada de um moleque para transar com a empregada que trabalha em sua casa; coisas como essa parecem comprovar a presença de, como disse um amigo, um cartel que coordena o cinema nacional...
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